Sete meses de silêncio nos trilhos: a viagem voltou, mas a comunicação da CP descarrilou
A circulação dos Intercidades entre a Guarda e Lisboa foi finalmente retomada. A recuperação da linha merece reconhecimento. O silêncio da CP durante quase sete meses, porém, continua sem explicação.
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| Estação de Comboios em Covilhã - Beira Interior. Portugal |
A reabertura da linha merece ser celebrada.
O que continua difícil de compreender é a forma como todo esse processo foi conduzido do ponto de vista da comunicação com os passageiros.
O problema nunca foi apenas a demora
É evidente que recuperar uma infraestrutura ferroviária atingida por um fenómeno climático desta dimensão exige tempo, recursos e uma enorme capacidade técnica. Nunca esperei que a circulação fosse restabelecida em poucos dias, nem acredito que alguém o esperasse de forma realista.
O que surpreendeu foi a ausência quase absoluta de informação ao longo desses meses.
Não houve uma sequência de comunicados, fotografias das obras, vídeos dos trabalhos em curso ou atualizações regulares que permitissem aos utilizadores acompanhar a evolução da recuperação da linha. Para quem aguardava diariamente o regresso do serviço, parecia que simplesmente nada estava a acontecer.
E esse silêncio acabou por falar mais alto do que qualquer comunicado.
Sem informação, surgem as dúvidas
Quando questionei exatamente essa falta de comunicação numa publicação nas redes sociais, rapidamente surgiram comentários em defesa da CP. Alguns lembraram que os estragos eram significativos, que o acesso às zonas afetadas era complexo e que eu desconhecia a verdadeira dimensão das dificuldades encontradas pelas equipas de manutenção.
Provavelmente estavam certos.
Eu realmente não conhecia os detalhes da obra. Mas arrisco dizer que a esmagadora maioria dos passageiros também não conhecia. E não conhecia porque a própria empresa nunca fez questão de explicar o que estava a ser feito, quais eram os desafios enfrentados ou em que fase se encontrava a recuperação.
Informar também faz parte da prestação do serviço público.
Transparência nunca é desperdício
Ao longo dos anos acompanhei diversos acidentes climáticos em diferentes partes do mundo. Um dos exemplos que mais me impressionou continua a ser o Japão, onde estradas completamente destruídas por sismos foram reconstruídas em tempo recorde para restabelecer rapidamente a mobilidade da população.
Naturalmente, Portugal e Japão possuem realidades completamente distintas, tanto em recursos como em capacidade operacional. A comparação não está na velocidade da reconstrução, mas na cultura de prestação de contas e no respeito pelo cidadão que depende daquela infraestrutura.
Quem utiliza um serviço público merece ser informado.
O vazio alimenta especulações
Na ausência de informações oficiais, cada utilizador construiu a sua própria versão dos acontecimentos. Tornou-se perfeitamente natural imaginar que havia dias com obras intensas e outros sem qualquer atividade. Não porque existissem provas disso, mas porque simplesmente não existia comunicação suficiente para afastar essas dúvidas.
Nenhuma empresa pública deveria permitir que o silêncio substituísse a informação.
Entre o comboio e o autocarro
Durante todo o período de interrupção, os passageiros passaram a dividir a viagem entre comboio e autocarro, numa solução inevitável para manter a ligação ferroviária parcialmente operacional. Em alguns dias os veículos eram modernos e confortáveis. Em outros, a experiência ficava bastante distante do padrão que normalmente se espera.
Continuo a preferir fazer este percurso inteiramente sobre carris.
Além do conforto, evita-se o trânsito, as filas, a chuva e o desgaste inevitável das estradas. E há outro detalhe curioso: no autocarro basta reclinar um pouco mais o banco para iniciar uma negociação silenciosa com o passageiro sentado atrás, situação praticamente inexistente nos comboios.
Aliás, fica uma sugestão.
Sempre que puder escolher o lugar no autocarro, opte pelos bancos imediatamente à frente da escada central, sobre a casa de banho. Como não existe ninguém atrás, é possível reclinar totalmente o encosto sem incomodar qualquer outro passageiro.
Uma das viagens mais bonitas de Portugal
Felizmente, assim que o comboio retoma o percurso, todas essas pequenas contrariedades ficam para trás. A viagem entre a Covilhã e Lisboa, pela Linha da Beira Baixa, continua a ser uma das mais belas experiências ferroviárias do país, acompanhando durante vários quilómetros as margens do Rio Tejo.
As paisagens sucedem-se entre montanhas, pequenas aldeias, pontes históricas e extensos vales, culminando com a vista privilegiada do Castelo de Almourol, erguido sobre uma pequena ilha no meio do rio. Um cenário que, por si só, já justificaria fazer esta viagem durante o dia.
É impossível não olhar pela janela.
Viajar continua a ser um prazer
Mesmo na segunda classe, os Intercidades oferecem poltronas confortáveis, mesas dobráveis, tomadas elétricas e ligação Wi-Fi gratuita, criando um ambiente bastante agradável para trabalhar, ler ou simplesmente apreciar a viagem. É um daqueles percursos em que o destino acaba por dividir protagonismo com o próprio caminho.
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| Vagão de 2ª Classe - Comboios de Portugal |
Sempre que viajo procuro sentar num lado diferente do vagão.
Ora escolho a janela voltada para o rio, ora prefiro observar as serras. Umas vezes viajo de frente, outras de costas. Basta mudar de lugar para descobrir novos enquadramentos e perceber detalhes que passaram despercebidos na viagem anterior.
Talvez seja esse o verdadeiro encanto dos comboios.
A paisagem nunca muda.
Mas o olhar de quem viaja muda sempre.
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