Portugal merece mais. E os portugueses também.
Há algo que me intriga desde que vivo em Portugal: por que, tantas vezes, temos a sensação de que tudo acontece mais devagar do que deveria?
E esta não é apenas a percepção de um imigrante. Diversos indicadores europeus mostram que Portugal continua enfrentando desafios importantes em áreas como produtividade, inovação, habitação, digitalização e eficiência dos serviços públicos. O potencial do país é enorme, mas os resultados nem sempre acompanham esse potencial.
O que mais chama a atenção, porém, são as pequenas experiências do dia a dia. Tentar obter uma informação simples de uma empresa pode transformar-se em um verdadeiro percurso de obstáculos. Você pede o contato do diretor de marketing e a resposta é: "Envie um e-mail para o endereço geral. Se o assunto for considerado relevante, alguém fará o encaminhamento."
Essa cultura do excesso de filtros cria barreiras desnecessárias. Em vez de aproximar empresas, investidores, parceiros e clientes, acaba afastando oportunidades. Fazer negócios deveria ser simples. Em muitos casos, parece que estamos tentando falar com uma celebridade, quando, na verdade, queremos apenas iniciar uma conversa profissional.
Portugal possui profissionais extraordinários, universidades de excelência, empresas inovadoras e uma qualidade de vida admirada em todo o mundo. O problema não é falta de talento. Talvez seja uma cultura que, por vezes, ainda aceita a burocracia e a lentidão como algo "normal".
Também me preocupa ver que, frequentemente, as explicações para as dificuldades aparecem antes das soluções. A culpa é dos governos anteriores, da guerra, da conjuntura internacional, da imigração, da economia global...
Claro que esses fatores influenciam. Mas a pergunta que realmente importa é: o que estamos fazendo hoje para mudar esse cenário?
Tenho uma ligação especial com Portugal. Sou descendente de portugueses. Meus avós chegaram ao Brasil sem riqueza, mas carregavam algo muito mais valioso: coragem, determinação e orgulho das suas origens. Mesmo vivendo toda a vida no Brasil, nunca deixaram de se sentir portugueses.
Eles pertenciam a uma geração que enfrentou fome, dificuldades e incertezas, mas construiu caminhos com trabalho e perseverança. É impossível não me perguntar: o que eles diriam ao ver o Portugal de hoje?
Talvez lembrassem que a maior herança que deixaram não foi um patrimônio material, mas a capacidade de agir diante das dificuldades.
Portugal não será transformado apenas por discursos, diagnósticos ou debates. Será transformado por pessoas que decidam inovar, simplificar, empreender, acolher investimentos, abrir portas e construir soluções.
O país tem história suficiente para inspirar o futuro. Tem talento suficiente para liderar. Tem localização privilegiada, estabilidade e uma projeção internacional que muitos países gostariam de ter.
A questão é: queremos continuar administrando limitações ou começar a construir possibilidades?
Porque, no fim das contas, Portugal será, nos próximos dez anos, o reflexo das decisões tomadas pelos portugueses de hoje.
E você? Como gostaria de ver Portugal em 2036?


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