Quando o Waze erra… e acerta: um dia na praia fluvial de Vila do Carvalho
Há viagens que começam no destino. Outras começam no caminho. A nossa visita à praia fluvial de Vila do Carvalho, no concelho da Covilhã, foi definitivamente da segunda categoria.
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| Foto: Rui Salcedas 2015 |
Com Portugal a viver alguns dos dias mais quentes do ano, com temperaturas entre os 35 e os 40 graus, decidimos fugir ao calor intenso e procurar um lugar onde a água fresca de montanha pudesse fazer o resto. O plano parecia simples: apenas 3,5 quilómetros de distância e cerca de 15 minutos de carro.
Parecia...
Como bons viajantes modernos, confiámos cegamente no Waze. O problema é que, sem perceber, acabei por selecionar um percurso alternativo. Só percebemos o erro quando já estávamos há quase dez minutos a subir montanha e o navegador insistia que ainda faltavam mais quinze.
E que subida!
Estradas estreitas, inclinações capazes de fazer qualquer motor suspirar e um percurso que obrigou o nosso fiel companheiro de aventuras — um Volkswagen Sharan de 1997, carinhosamente apelidado de "trator" — a enfrentar metade do caminho em primeira velocidade. Sem ar-condicionado, mas equipado com um teto solar que pouco fazia contra o calor escaldante, seguimos em frente.
Em muitos troços, os espelhos instalados nas curvas eram os nossos melhores amigos. Apesar das estradas serem de dois sentidos, havia espaço para apenas um carro de cada vez. Algumas curvas eram tão fechadas que só era possível avançar depois de confirmar, pelo reflexo desses espelhos, que ninguém vinha no sentido contrário.
O curioso é que aquilo que parecia um erro acabou por se transformar numa das partes mais bonitas da viagem.
Subimos muito acima do que imaginávamos ser o topo da Covilhã. A paisagem tornou-se quase deserta. À nossa volta, montanhas, pinheiros e uma vista simplesmente extraordinária. Um daqueles lugares onde o silêncio parece fazer parte da paisagem.
Pouco depois atravessámos uma pequena aldeia de ruas estreitas e cheias de personalidade. Em certos momentos, parecia que os retrovisores do carro iam tocar nas paredes das casas. Era impossível não reduzir a velocidade e admirar aquele cenário pitoresco, onde tudo parece acontecer num ritmo diferente.
Finalmente, o Waze anunciou a chegada.
O local indicado era... curioso.
Nenhuma placa. Nenhuma indicação. Estávamos atrás do edifício dos CTT, numa rua sem saída, onde apenas uma fonte de água brotava discretamente de uma parede.
"Será mesmo aqui?"
Estacionámos à sombra — já passava das duas e meia da tarde e o sol castigava sem piedade — e resolvi caminhar até ao final da rua. Uma pequena passagem levava para uma área mais rústica.
Era ali.
Viemos preparados para passar a tarde. Levámos duas cadeiras dobráveis de lona, leves o suficiente para transportar debaixo do braço, uma pequena bolsa térmica com chá-mate de limão bem gelado, sumo de frutos vermelhos, batatas fritas com sabor a cebola caramelizada e vinagre balsâmico, bolachas Biscoff e dois copos de papel.
Poucos passos depois surgiu a primeira surpresa.
Um cheiro bastante forte a urina quebrava completamente a expectativa criada pela caminhada.
Mas bastou avançar um pouco mais para tudo mudar.
À nossa frente aparecia uma belíssima piscina natural alimentada pelas águas do rio. Pequenas cascatas desciam suavemente entre as rochas até formarem um tanque de águas cristalinas.
O cenário compensava imediatamente a primeira impressão.
O local estava praticamente vazio. Um casal apanhava sol sobre uma rocha. Mais acima, uma família divertia-se num pequeno tanque natural junto a uma cascata. Do outro lado do rio, dois jovens aproveitavam outros patamares naturais.
Preferimos caminhar sobre as pedras, atravessar um pequeno curso de água e procurar um lugar mais reservado.
Nem foi preciso andar muito.
Encontrámos um pequeno tanque onde a água mal chegava às canelas. Ali seria o nosso refúgio durante as horas seguintes.
É difícil descrever aquela sensação.
O contraste entre o calor intenso do verão e a água fria da Serra da Estrela parecia desligar qualquer preocupação.
Só se ouviam pequenas quedas de água, o rio a contornar as pedras e o vento a atravessar os pinheiros.
À nossa frente, um céu incrivelmente azul contrastava com o verde profundo das árvores. Uma pequena ponte rústica de pedra atravessava o rio e, ao fundo, as ruínas de uma antiga construção completavam um cenário que transmitia uma paz difícil de encontrar.
Era um daqueles lugares onde o tempo simplesmente deixa de ter importância.
Infelizmente, bastou olhar com um pouco mais de atenção para perceber que nem tudo era tão perfeito.
Entre a areia grossa do rio brilhavam pequenos minerais que refletiam a luz do sol. Mas, misturadas com eles, apareciam tampas de garrafas espalhadas pela água.
Nas margens, o cenário repetia-se: beatas de cigarros, embalagens de iogurtes e vidro partido denunciavam a passagem dos chamados "animais civilizados".
Um espaço público com tanto potencial não dispõe de casas de banho, qualquer ponto de apoio, vigilância ou mesmo um zelador que incentive a preservação daquele pequeno paraíso. Durante a nossa permanência ainda chegaram alguns adolescentes que saltavam de rochas bastante altas para o tanque, sem qualquer supervisão.
A natureza faz a sua parte.
Nem sempre nós fazemos a nossa.
Quando o sol começou a desaparecer por detrás dos pinheiros, percebemos que era hora de regressar.
Desta vez, sem aventuras.
O Waze resolveu colaborar e escolheu finalmente o caminho certo. Em apenas doze minutos estávamos novamente no centro da Covilhã.
Vale a pena?
Na minha opinião, sim.
Principalmente durante a semana, quando o movimento parece ser bastante reduzido. Aos fins de semana imagino que o espaço fique bastante concorrido e o estacionamento, que já é limitado, provavelmente se torna um desafio.
Se tivesse de atribuir notas, seriam estas:
- Percurso (com direito ao desvio inesperado): 7/10
- Experiência e tranquilidade: 8/10
- Conservação e limpeza: 6/10
Apesar das falhas, Vila do Carvalho oferece um daqueles pequenos refúgios que nos lembram que, muitas vezes, não é preciso viajar centenas de quilómetros para encontrar um lugar especial.
E talvez essa tenha sido a maior descoberta do dia.
Nem sempre o melhor caminho é o que o GPS planeia. Às vezes, é precisamente aquele em que nos perdemos um pouco antes de nos encontrarmos.


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